Trabalho há alguns anos com gestão de patrimônio. Quando conto isso, a reação quase sempre segue o mesmo caminho: a pessoa pensa em compra e venda de ativos. O que comprar, o que vender, quanto rende.
Essa escolha, claro, faz parte do processo. Mas, sozinha, raramente conta a história completa.
Imagine separar os ingredientes perfeitos para um risoto: uma parte de arroz para quatro de caldo, vinho branco, cebola, manteiga, tudo escolhido a dedo e da melhor qualidade possível. E então jogar tudo na panela de uma vez, em fogo aleatório, em ordem aleatória. Não vai sair risoto. Vai sair arroz com caldo.
Tostar o arroz antes, acrescentar o caldo aos poucos, mexer até o amido soltar: é o processo que transforma aqueles ingredientes em risoto. Com investimentos, acontece algo parecido. É o processo que transforma bons ativos em bom planejamento.
Uma amiga vendeu sua empresa no Brasil em maio de 2014. Vendeu bem, o suficiente para não precisar trabalhar novamente. Conservadora por natureza, montou uma carteira sólida de renda fixa brasileira e rendeu algo perto de 110% do CDI: 259% acumulados em doze anos, 11% ao ano. Para um período que atravessou a recessão de 2015 e 2016 e uma pandemia, é difícil encontrar alguém que criticasse esse desempenho. Os ingredientes eram de qualidade.
O detalhe é que ela morava em Nova York havia anos. Viajava muito, vivia do próprio patrimônio e gastava em dólar. Os investimentos ficaram no Brasil e ela continuou sendo tributada aqui, sem nunca ter formalizado a saída fiscal. Não era tarefa de ninguém em particular fazer essa pergunta. Dos 11% brutos, sobraram 9,4%.
Mas a tributação era apenas parte do problema.
A vida dela era em dólar e a carteira, em real. Num banco isso teria nome: má gestão de ALM, asset liability management, o casamento entre ativos e passivos. Uma pessoa física tem exatamente o mesmo balanço, só não costuma olhar para ele dessa maneira.
Do lado dos ativos estão os investimentos, os imóveis e a renda que ainda se espera receber ao longo da vida. Do lado dos passivos estão as dívidas e, principalmente, as despesas futuras.
Fundos de pensão são construídos em torno dessa ideia. O objetivo não é simplesmente maximizar o retorno da carteira. É garantir que ela consiga pagar o que precisa pagar, quando precisa pagar e na moeda em que a conta chega.
Quase ninguém aplica o mesmo raciocínio ao próprio patrimônio.
No caso dela não havia mais empresa nem renda do trabalho. O ativo era a carteira. O passivo era o custo de viver em Manhattan pelas próximas décadas. Um estava em real, o outro em dólar.
O balanço de uma vida: ativo, passivo e o que sobra
Descasamento cambial
Patrimônio líquido = ativo − passivo
Quando os dois lados do balanço estão em moedas diferentes, o patrimônio real, ativos menos passivos, passa a depender do câmbio. Isso não é ter uma opinião sobre o dólar. É ter uma posição em dólar, sem que ninguém a tenha decidido. Se o real tivesse se valorizado, ela teria ganhado dinheiro sem fazer nada.
Aconteceu o contrário: o dólar saiu de R$ 2,23 em maio de 2014 para pouco mais de R$ 5,00 hoje, uma alta de 127%.
O resultado é que os 9,4% ao ano em real viraram 2,3% ao ano em dólar. Em doze anos, o patrimônio dela cresceu 31% na moeda em que ela vivia. A inflação americana, no mesmo período, foi de 41%.
O retorno não foi apenas baixo: ele foi negativo em termos reais. Ela perdeu cerca de 7% do próprio poder de compra antes de gastar um único dólar, depois de doze anos carregando risco de crédito, risco de juros e risco de país. Quando entram na conta os impostos que passou a pagar nos Estados Unidos e as despesas do dia a dia, o que ela viu na prática foi o patrimônio encolher ano após ano.
Do retorno bruto ao retorno na moeda em que se gasta
A carteira era conservadora em relação ao CDI. Em relação à vida que precisava financiar, era uma aposta direcional em moeda. Não por causa da qualidade dos ingredientes, mas pela maneira como foram combinados.
O que aprendi nesses anos é que a pergunta interessante quase nunca é “o que eu compro”. É onde esse dinheiro está, em que moeda, sob qual regime tributário, em nome de quem? E, principalmente, para pagar o quê?
As perguntas que organizam um patrimônio
Tenho consciência de que isso é conveniente de dizer para quem trabalha com gestão patrimonial. Mas há uma inconveniência que compensa: são respostas bem menos empolgantes do que uma recomendação de ação, e não há nada a comemorar quando estão certas. Apenas a ausência de um problema que nunca chegou a acontecer.
Vale o exercício de olhar para o próprio balanço. De um lado, o que você tem. Do outro, o que a vida que você pretende ter vai custar, e em que moeda. Se os dois lados não conversam, o problema não está na escolha dos ingredientes.
Caio Athié Teruel, CFA
Cimo Multi Family Office
Este material tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento, consultoria tributária ou jurídica.