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Carta · Comportamento e longo prazo

O que você vê pela janela?

Caio Guicciardi

Vista de montanhas e vale pela janela de um trem

Toda vez que eu conto pra alguém que trabalho no mercado financeiro, as pessoas logo me imaginam como alguém que passa o dia olhando para a tela do computador, cercado de gráficos, com luzes que piscam para saber qual ação subiu e qual ação caiu. E apesar do estereótipo, a verdade é que grande parte da construção de um patrimônio perene não acontece a partir de luzes piscando e um gráfico numa tela, e muito menos em um dia aleatório.

Apesar da minha crítica aos gráficos que piscam, existe um que vale a pena explorar nesta carta: o gráfico das janelas de retorno (e ele não pisca). Quanto mais curta a janela de tempo, maior a dispersão dos resultados. Quanto mais longa, mais os retornos convergem para algo positivo e previsível. É um gráfico honesto, tecnicamente correto, mas ignorado mais vezes do que deveria.

Não porque as pessoas não entendam. Entendem, mas entender não muda o comportamento. Se mudasse, ninguém fumaria depois de ler a caixa do cigarro.

Vamos usar como exemplo o Ibovespa. O índice de ações brasileiro nunca perdeu dinheiro em nenhuma janela de dez anos desde que se tem registro. Nenhuma. Já em janelas de um único dia, perde em quase metade das vezes. São os mesmos ativos, a mesma economia, o mesmo país, mesmos problemas. O que muda é só o tamanho da lente que você escolhe usar para olhar.

Retorno anualizado do Ibovespa · amplitude entre a pior e a melhor janela −50% +50% +100% 0% 1 ano 3 anos 5 anos 10 anos nenhuma janela negativa o mesmo índice, lentes diferentes
Amplitude ilustrativa dos retornos anualizados por janela de investimento. Quanto mais longa a janela, mais estreita a dispersão e mais o resultado converge para o retorno esperado da classe.

E isso se repete para praticamente qualquer classe de ativos com retorno esperado positivo. Mas entre o retorno esperado e o retorno concreto, existe uma série de dias em que nada parece estar acontecendo. Paul Samuelson resumia bem: “Investir deve ser mais como ver a tinta secar ou assistir a grama crescer. Se você quer adrenalina, pegue US$ 800 e vá para Las Vegas.”

A cultura do curto prazo

Há algo de injusto no relatório mensal. Não me leve a mal, é uma ferramenta essencial para o acompanhamento contínuo do patrimônio, mas não pode ser o gatilho da tomada de decisão. Ele pega um processo que foi desenhado para décadas e o recorta em fatias de trinta dias, cada uma com seu veredito. Mês bom, mês ruim, mês que rende menos que o CDI, mês que rende mais. E o investidor, diante dessa série de julgamentos, vai formando uma opinião sobre o portfólio que muitas vezes não tem nada a ver com o que o portfólio de fato está fazendo por ele.

Quem abre o home broker todo dia está, sem perceber, procurando motivo para se preocupar. E vai encontrar, porque o curto prazo é generoso nisso: sempre tem uma notícia ruim, um áudio que vazou, uma empresa em recuperação judicial, um fundo que caiu, uma guerra que interrompeu uma cadeia de suprimentos.

Uma carteira bem construída vai ter dias, meses e às vezes até trimestres e anos ruins. Não existe forma de capturar o retorno de longo prazo sem atravessar os dias em que o curto prazo machuca. Bom, talvez exista, mas pra isso você precisaria construir o DeLorean (De Volta para o Futuro) e viajar no tempo para saber todos os dias de queda antecipadamente. Assim, você poderia sempre vender antes deles acontecerem e recomprar na volta, mas quem descobrir como fazer isso não precisa de gestão: precisa de um bom advogado de patentes.

A vida também funciona assim, e é por isso que ela pode nos ensinar a investir melhor

Toda essa dinâmica não é exclusiva do mercado financeiro. Ela é só a versão financeira de algo que a vida nos ensina todos os dias, se prestarmos atenção. Uma semana de treino não muda o corpo. Um mês de dieta não muda a saúde. Um trimestre de estudo não muda a carreira. Mas décadas de cada um desses mudam tudo. O atleta que se prepara para uma competição não acorda mais forte no dia seguinte ao primeiro treino, acorda mais cansado, mais dolorido, e por um bom tempo os resultados são imperceptíveis.

O mundo pós-pandemia, de conteúdos recortados, deliveries rápidos, compras que chegam no mesmo dia, respostas imediatas, otimizou a recompensa instantânea a ponto de torná-la vício. Nunca tivemos tantas vitrines de sucesso, e as pessoas escolhem o que mostrar. O amigo que ganhou dinheiro comprando bitcoin a 20 mil não mostra as memecoins que viraram pó. O parente que multiplicou o capital em ações da Magazine Luiza não conta que o investimento em Oi foi a zero. Estatisticamente, alguém sempre vai se dar bem dando tacadas aleatórias. Num universo grande o suficiente, o acaso produz histórias espetaculares. Mas o cemitério dos perdedores é silencioso, e a única forma de evitá-lo é fazendo as coisas da forma certa: com seriedade, técnica, competência e consistência, ao longo de um grande período de tempo.

A paciência como vantagem competitiva

Howard Marks escreveu, em uma de suas cartas, que o retorno superior não vem de ativos melhores, mas de comportamento melhor. A maior parte da destruição de valor em portfólios não acontece porque o ativo era ruim. Acontece porque alguém vendeu no momento errado, comprou no momento errado, ou mudou de estratégia no exato instante em que a estratégia anterior começaria a funcionar.

E por que alguém faz isso? Porque o curto prazo dói. Dói mais do que deveria, porque estamos neurologicamente programados para responder à perda com muito mais intensidade do que ao ganho. Daniel Kahneman mostrou que perder cem reais incomoda aproximadamente duas vezes mais do que ganhar cem reais agrada.

Como saber se está no caminho certo, sem cair no próprio curto prazismo que essa carta critica

Quando falamos de longo prazo, é importante lembrar que ele é feito de uma sequência de “curtos prazos”, e que a coisa certa precisa ser feita em cada um deles para que o resultado se construa lá na frente. Então como saber se o trabalho está no caminho certo, sem cair na armadilha de julgar pelo extrato do mês?

Do ponto de vista técnico, um profissional de mercado avaliaria aspectos como a distribuição entre classes de ativos, a diversificação dos vetores de risco, a competência na gestão de cada um deles, o ajuste de duration, o correto dimensionamento do risco de crédito, o controle de volatilidade, a escolha dos veículos e estratégias adequados, com os menores custos e estruturas mais eficientes. São critérios objetivos, mensuráveis, e fazem parte do trabalho do dia a dia.

Mas você, que não é de mercado, como pode saber se o bom trabalho está sendo feito? Eu diria que os sinais são menos técnicos e mais práticos, e guardam uma semelhança com os sinais de uma vida bem construída fora do mercado também. O bom trabalho aparece quando uma crise, seja no mercado ou na vida, acontece e você não precisa tomar nenhuma decisão desesperada, porque a carteira já estava preparada antes do problema surgir. Aparece quando você percebe que não perseguiu o ativo da moda que todo mundo perseguiu, e que isso, no acumulado, te protegeu. Aparece quando o relatório de fim de ano mostra um patrimônio que cresceu acima da inflação, sem apostas concentradas, sem aquela montanha-russa que oscila entre o medo e a ganância.

O bom trabalho, quase sempre, se parece com nada acontecendo. E é exatamente por isso que ele é tão difícil de reconhecer e tão raro de encontrar.

Um bom trabalho é um processo lento, contínuo e silencioso de construção, seja no portfólio, no corpo, nos negócios e em qualquer coisa que valha a pena construir. A diferença entre quem chega lá e quem não chega raramente está em uma tacada de sorte em um dia aleatório. Está em quem conseguiu olhar para a janela certa, pelo tempo certo, sem trocar de janela no meio do caminho.

O mercado recompensa quem entende isso. A vida também.

Caio Guicciardi

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