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Carta · Gestão patrimonial

Afinal, o que é risco?

Depois de alguns anos no mercado de gestão patrimonial, há duas perguntas que me chegam com frequência: “esse investimento tem risco?” e “entre essas alternativas, qual é a menos arriscada?”.

Não são perguntas difíceis por complexidade técnica. São difíceis porque quase sempre partem de uma premissa trocada: a de que risco é uma propriedade do investimento, como o prazo ou a rentabilidade. Não é. Risco é uma relação entre o investimento e quem investe, e é por isso que a mesma aplicação pode ser prudente para uma pessoa e ousada para outra.

Antes de aprofundar no risco, precisamos definir o que é risco.

O verbete tem uma origem interessante. Há três hipóteses principais. A primeira remete ao latim resecare, cortar. O risco seria a rocha submersa que rasga o casco do navio. A segunda vem do árabe rizq, que designa o sustento, aquilo que a providência concede a cada um; uma noção curiosamente neutra, quase generosa. A terceira parte do grego rhiza, raiz, palavra usada também para os rochedos que despontam junto à costa. Navegar entre eles era rhizikon.

Duas das três apontam para o mar, e isso não é coincidência. A palavra só passa a circular de fato na Europa medieval junto com o comércio marítimo, quando os primeiros contratos de seguro precisaram colocar preço em algo que até então se chamava sorte ou destino.

Veleiro antigo navegando entre rochedos junto à costa
A rocha que rasga o casco: a ideia que provavelmente dá origem à palavra.

Risco nasce, portanto, no momento em que alguém decide que a incerteza pode ser medida, negociada e dividida entre várias pessoas.

Risco é, antes de tudo, uma probabilidade, com a diferença de que é a probabilidade de um resultado que você não quer. Dizemos que um time tem 80% de chance de ganhar e, na mesma frase, que corre o risco de perder. É a mesma matemática vista de lados opostos. Quando me perguntam qual é o risco de um investimento, entendo que estão perguntando qual é a chance de dar errado.

Só que a probabilidade sozinha não basta. Um investimento com 30% de chance de lhe custar 2% e outro com 1% de chance de lhe custar tudo não são comparáveis, ainda que o segundo pareça mais seguro em qualquer tabela de frequência. Risco é probabilidade combinada com consequência.

Probabilidade de dar errado 30% Investimento A perde 2% quando dá errado 1% Investimento B perde tudo quando dá errado Perda esperada · probabilidade × consequência Investimento A 30% × 2% 0,6% Investimento B 1% × 100% 1,0% Duas formas de perder dinheiro. A mais provável não é a mais cara.

E é aqui que o questionamento inicial falha, porque consequência pressupõe uma pergunta anterior: consequência em relação a quê? Só é possível dizer que algo deu errado depois de definir o que seria dar certo.

Imagine duas pizzarias. A primeira, em 10% dos pedidos, simplesmente não entrega. A segunda entrega sempre, mas em 20% das vezes manda o sabor errado. Antes de continuar, escolha uma: qual das duas você pediria?

Guarde sua resposta, porque ela diz mais sobre você do que sobre as pizzarias. Se está morrendo de fome e o que importa é ter o que comer hoje, a primeira falha justamente naquilo que você precisa, enquanto a segunda cumpre o objetivo em 100% dos casos. Agora, se você só come margherita, a conta se inverte por completo: a segunda falha com o dobro da frequência da primeira.

Mesmos números, riscos opostos. O que mudou não foi a pizzaria, foi o objetivo.

Sim, o mais sensato seria nunca mais pedir de nenhuma das duas. Como pizzarias, são um desastre. Como analogia, são excelentes.

Com investimentos não é diferente. Você pode investir para rentabilizar um caixa que será usado em breve, para construir uma aposentadoria daqui a trinta anos, ou para superar um índice específico de mercado. São objetivos distintos e, como no caso da pizza, desenham panoramas de risco distintos.

Pegue dois deles: bater o CDI e acumular o suficiente para se aposentar. Um investimento com retorno ligeiramente acima do CDI e comportamento muito consistente tem baixo risco de ficar para trás do índice ano após ano. Mas se a sua meta de aposentadoria exige algo próximo de CDI mais 3% ao ano, esse mesmo investimento, impecável no primeiro critério, carrega um risco elevado de não entregar o que você precisa lá na frente. E esse é um risco silencioso, porque não aparece em nenhum extrato mensal. Ele só se revela na chegada, quando já não há muito o que fazer a respeito.

Um investimento com retorno médio mais alto e mais oscilação no caminho inverte a equação: mais risco de ficar atrás do CDI em janelas curtas, menos risco de frustrar o objetivo final.

Nenhum dos dois é o mais arriscado em termos absolutos. Cada um é o mais arriscado para uma pergunta diferente.

CDI Meta: CDI + 3% ao ano Investimento A Investimento B Volatilidade do Investimento B hoje 1 2 3 4 5 anos Os primeiros cinco anos hoje 5 10 15 20 anos Os próximos vinte anos B fica atrás até do CDI
Trajetórias ilustrativas de patrimônio acumulado. O investimento A rende pouco acima do CDI com grande consistência; o B tem média mais alta e muita oscilação. O que protege o extrato mensal não é o mesmo que protege a chegada.

Os modelos de mercado precisam de uma medida objetiva de risco, e a mais usada é a volatilidade, que mede o quanto o preço de um ativo oscila em torno da sua média. A escolha faz todo sentido: volatilidade é mensurável, comparável entre ativos completamente diferentes, atualizável todo dia e se encaixa bem em modelos de precificação e de construção de carteira. É uma ferramenta legítima e útil, e usá-la é bem melhor do que navegar no escuro.

O que ela mede, porém, é oscilação, não frustração de objetivo, e isso traz algumas limitações. A volatilidade é sempre calculada olhando para trás, e o passado nem sempre se repete. Ela trata desvios para cima e para baixo com o mesmo peso, como se ganhar mais do que o esperado fosse tão indesejável quanto perder. E costuma subestimar exatamente os eventos raros e severos, que são os que de fato machucam um patrimônio.

Acima de tudo, a volatilidade é uma característica do ativo, não sua. Dois investidores com o mesmo fundo, o mesmo valor aplicado e o mesmo extrato podem estar correndo riscos completamente diferentes, porque um precisa desse dinheiro em doze meses e o outro em vinte anos.

Ou seja, a volatilidade responde muito bem à pergunta “o quanto isso balança?”. Ela não responde à pergunta “qual a chance de eu não chegar onde quero chegar?”. As duas são legítimas, mas só a segunda é sobre o risco para você.

O mercado é feito de probabilidades, e não existe investir ou construir carteira sem incorporar esses cálculos de incerteza.

A escolha nunca é entre correr risco e não correr risco. É sobre qual risco faz sentido correr, e a que custo.

Por isso, quando me perguntam se um investimento é arriscado, a resposta honesta costuma começar com outra pergunta: arriscado em relação a quê? Qual probabilidade você quer evitar?

Caio Athié Teruel, CFA

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